06 out 2016

A necessidade do brasileiro de ser adorado em outros países

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Essa semana eu participei de um congresso online de brasileiros morando no exterior (em 20 países), realizado por agências de intercâmbio. Além do depoimento de brasileiros que já moram fora há mais de 5 anos, o congresso ofereceu palestras de psicólogos, economistas, agências de turismo e vários outros segmentos mas o que mais me chamou a atenção foi quando se tocou no assunto de que o brasileiro morando fora ou até mesmo o que vai a passeio, tem a necessidade de ser adorado em outro país. Essa afirmação foi feita não apenas por psicólogos mas por brasileiros que passaram a ver que vendemos uma imagem da nossa cultura que nem sempre nos ajuda ou é 100% verdadeira.

Não é novidade para ninguém que a personalidade brasileira é uma das mais alegres. Isso é reconhecido principalmente por estrangeiros. Culturalmente, embora não dê para generalizar, o brasileiro não tem tanta dificuldade em conversar com desconhecidos, contar a vida no metrô, beijar na boca alguém sem nunca ter falado um oi antes, deixar depoimentos muitas vezes até bem pessoais em redes sociais, cumprimentar o outro com beijo (dependendo da cidade, com mais de um) e por aí vai. Somos conhecidos mundo à fora pela informalidade nas relações e pela alegria.

No entanto, acreditar que isso é uma verdade absoluta é a causa de muita gente não se adaptar em outro país. Em se tratando de traços culturais não se pode dizer que uma característica é algo que será encontrado exatamente assim em todas as pessoas. Acreditar que o brasileiro é essa pessoa maravilhosamente sociável é pedir pra se frustrar lá fora e ignorar a outra parte da realidade. 

Nesse congresso online, por exemplo, os brasileiros com menos de 1 ano em outro país acreditavam em determinadas “verdades” que brasileiros com mais de 1 ano fora e psicólogos presentes provaram que não passam de uma distorção da realidade que despertam no inconsciente desse brasileiro a necessidade de ser adorado no exterior, o que consequentemente dificulta muito a sua adaptação.

Por exemplo, contar a vida no metrô a um desconhecido ou ser legal num primeiro contato não é fazer amigos facilmente como muita gente acredita. Ser amigo exige constância e vai além de ser sociável. Não se pode esquecer que em muitas culturas ser reservado diante de um desconhecido é uma das maiores provas de respeito por ele.

O brasileiro no exterior que diz que não se adapta com a forma como o estrangeiro se relaciona e muitas vezes coloca isso como falta de educação daquela cultura; geralmente (não é correto generalizar) é o mesmo cara que acredita tanto no lado maravilhosamente legal do brasileiro que acaba esquecendo que assim como tem o brasileiro que recebe bem o gringo, tem o brasileiro que vende uma água na praia por R$ 10 a mais ao pobre gringo inocente.

Geralmente esse cara é o que fica horrizado quando vê notícias de brasileiras estupradas no exterior e brasileiros vítimas de violência lá fora e esquece que não são poucas as notícias de coisas bem terroristas com gringos visitando o nosso país.

Geralmente o brasileiro que diz ter sofrido preconceito em outro país e que continua afirmando que o Brasil abre as portas para todos, esquece que o Brasil alegre é o mesmo que também é homofóbico, que diz não ter preconceito com negros, que zomba dos nordestinos mas tira férias em suas lindas praias.

Geralmente, o brasileiro que mora fora e não se conforma com o estrangeiro que nem sempre está sorrindo ou sendo gentil, é o mesmo que esquece que nossa querida gente brasileira tem pressa, nem sempre é das mais educadas no transporte público, além de ser a mesma gente que diz “vamos se ver” e aí se passam 10 anos e ninguém nem se falou.

Geralmente, o brasileiro que diz que no Brasil as pessoas abrem suas casas para todos, é o que comete o erro de generalizar. Brasil tem praticamente países dentro dele, onde cada estado tem as suas próprias características. Eu sou de São Paulo, amo a minha cidade mas tenho certeza que qualquer brasileiro vindo de uma cidade menor, pode garantir que São Paulo também consegue ser uma verdadeira selva de pedra nas relações. Acho que com o vídeo vai ficar mais fácil entender tudo.

O que acontece pessoal, é que ao morar fora nos tornamos mais carentes e passamos a prestar mais atenção naquilo que tínhamos e tudo isso ganha um peso que muitas vezes supera a verdade e cria em nós essa necessidade inconsciente de ser “adorado” no exterior, de ser paparicado para se sentir bem, ao invés de sair da zona de conforto para se adaptar e constatar que assim como tudo o que se diz da personalidade brasileira não é verdade absoluta, tudo o que você imagina ou te disseram sobre as pessoas desse outro país, também não é, tanto no postivo quanto no negativo.

Você que mora fora, abra a sua mente para o novo por mais difícil que isso possa parecer. Troque a comparação pelo aprendizado e gratidão. Sua adaptação será bem mais enriquecedora. Sinta saudade e valorize a sua cultura mas não a supervalorize a ponto de não ver o outro lado porque isso é o que te faz infeliz aonde você decidiu viver. E principalmente, pare de achar que em menos de 1 ano você vai se adaptar facilmente mas se fechar os olhos para o que foi dito nesse post, vai demorar muito mais. E se você é turista no exterior, pare de achar que em poucos dias teve a impressão 100% verdadeira dessa cultura.

Fê La Salye
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Comentários
5 comentários em "A necessidade do brasileiro de ser adorado em outros países"
  1. Juliana Lamoglia   06/10/16 • 09h37

    Fê,

    Vc tem toda a razão! Eu já estive no Chile por 3 vezes, tenho amigos chilenos e a cultura deles me encanta! No Chile as pessoas podem passar os domingos no parque, deitadas na grama!! Eu moro no Rio de Janeiro e aqui não se pode imaginar isso. Se vc deita na grama de um parque aqui, ou a polícia vai até vc perguntar o que está acontecendo, ou vc é assaltada … rs! Ah! Eu também amei o pão com abacate e o abacate em tudo na comida. Nunca tinha comido abacate salgado e adorei!!

    • Fê La Salye   06/10/16 • 10h56

      Pois é, a questão vai além. Corremos o risco de achar que a nossa cultura é a mais amigável do mundo. Parece que queremos acreditar nisso para justificar a nossa falta de empatia ou adaptação com outra cultura, o que é bem normal mas não nos faz a cultura ou pessoas mais legais do mundo. Bjsss

  2. Ricardo   06/10/16 • 19h06

    Bien certera….

  3. monica maia   08/11/16 • 00h52

    oi Fernanda! Sou brasileira, mas moro em Buenos Aires desde 2009, e estou de mudança para Santiago em janeiro/17, me casei aqui com um argentino, que já vai com seu trabalho, planejamos alugar (pra ver a questao da adaptacao, etc, no nosso primeiro ano aí) uma casa ou ape mobiliado, só que temos uma cadela que é nossa primeira filha rsrsr, voce sabe dizer se é comum que se aluguem imoveis mobiliados para quem tem mascotes? Ja vi e li muita coisa no seu blog, ta me ajudando muito, ja estamos procurando imovel, mas nos filtros dos sites nao tem essa opcao… vc sabe informar algo nesse sentido? saludos!! Monica

    • Fê La Salye   13/12/16 • 10h45

      Monica, recomendo o post sobre como é alugar ou comprar imóveis aqui. Boa sorte!

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